terça-feira, 23 de abril de 2013

POR FAVOR, SENHOR ARISTÓTELES, EU NÃO ENTENDI...

Quem quiser entender a tragédia grega precisa conhecer a Poética, um pequeno compêndio escrito por Aristóteles, por volta de 344 a.C. Não que todo o assunto tenha sido esgotado na Poética, mas porque, mais de dois mil anos depois de ter sido escrita, sua leitura ainda é fundamental para se pensar e analisar a tragédia. Originalmente a Poética não foi concebida como um livro, mas como um conjunto de apontamentos das aulas que o filósofo ministrava em seu Liceu. De forma alguma ela é um estudo sobre o teatro em geral, mas tão somente sobre a tragédia grega. Aristóteles deixou para falar sobre a comédia em outra ocasião, mas, infelizmente, nada chegou até nosso tempo. Nunca saberemos se em algum momento ele o fez ou se, caso tenha feito, se os seus apontamentos se perderam ou foram destruídos. A Poética é dividida em vinte e seis capítulos que tratam de diversos aspectos da tragédia. São questões sobre o conceito de poesia, suas diferentes expressões – sendo a tragédia uma delas – as origens das expressões teatrais, suas evoluções e, após o capítulo VI, a atenção se concentra na análise da tragédia propriamente dito: ele passa a discorrer sobre suas partes constitutivas, a estrutura de seu roteiro, ou mito, faz comparações entre a epopéia e a tragédia e, por fim, levanta alguns conceitos fundamentais para que possamos compreender a tragédia. As principais reflexões de Aristóteles começam a ser expostas a partir da idéia de que a tragédia (e por extensão, todas as expressões artísticas) se constitui de imitação (mimesis, ou mímese): “É, pois, a tragédia imitação de uma ação de carácter elevado, completa e com as várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes [do drama], [imitação que se efetua] não por narrativa, mas mediantes atores (...)” (cap. VI) E aqui tem início um dos primeiros grandes embates filosóficos sobre o fazer teatral. Platão, que fora professor de Aristóteles, ensinava que as artes – e mais especificamente o teatro – são atividades indesejáveis dentro de uma sociedade perfeita. Isso porque, para ele, o mundo material é uma cópia mal acabada de um mundo perfeito, que ele concebia como o “Mundo das Idéias”, ou seja, há um mundo de modelos ideais de tudo que existe neste outro mundo, o mundo material. Ora, se as artes imitam a vida e a vida é, por sua vez, imitação das idéias, logo as artes são cópia da cópia, evidentemente, esta última seria apenas um péssimo esboço do original. Além disso, Platão acreditava que as artes levariam os homens a sentirem emoções indignas e fora de controle, o que não condiz com o perfeito equilíbrio que um filósofo deve ter sobre suas emoções. Para Aristóteles as coisas seguem uma outra linha de pensamento. Ele não concorda com o conceito de Mundo das Idéias de seu antigo professor. Para ele, a poesia é sim cópia do mundo, mas não de como ele é, mas de como deveria ser. Escreveu Aristóteles: “(...) não é ofício do poeta narrar o que aconteceu; é sim, o de representar o que poderia acontecer (...)” O poeta, ao imitar o mundo, corrige as imperfeições da Natureza decorridas dos acidentes do acaso e das quais nascem as particularidades que individualizam pessoas e situações. Assim, quando o dramaturgo re-elabora o mito, transformando-o em peça teatral, ele não escreve as particularidades de uma única pessoa, mas lhe dá contornos comuns a toda a espécie retratada, cria um arquétipo, uma figura modelar. Aristóteles completa a afirmação escrevendo: “Por isso, a poesia é algo de mais filosófico e sério que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta, o particular”. Outros importantes conceitos levantados por Aristóteles são os que envolvem os sentimentos de terror e piedade e o que trata do herói trágico. O herói é sempre alguém que goza de boa reputação entre os seus, sendo, na maioria das tragédias, o ancestral de alguma família aristocrática. Para Aristóteles, esses heróis não devem ser “(...) homens muito bons que passam da boa para a má fortuna – caso que não suscita terror nem piedade, mas repugnância –, nem homens muito maus que passem da má para a boa fortuna, pois não há coisa menos trágica (...)”,afinal, quem sentiria piedade por um homem mau que sofresse duras provações? No máximo pensaríamos que é a justiça divina se fazendo presente... O herói trágico, não sendo alguém totalmente bom, nem totalmente mau, comete sua harmátia, a sua falha trágica, movido por um engano. É importante saber que a harmátia está no cerne da tragédia, sem ela não se movem os mecanismos do destino que levará a tragédia ao seu fatídico desfecho. O erro cometido pelo herói trágico em suas desventuras leva o público a experimentar uma sensação de enorme terror, pois são geralmente os piores crimes, como o cometido pelo herói tebano Édipo, que, em completa ignorância, matou Laio, seu pai, e casou-se com sua mãe, Jocasta, tendo com ela quatro “filhos-irmãos”. Mas, pela propensão para o bem, assim como a sua importância dentro de sua comunidade e pelo fato de seus crimes serem frutos de enganos e ignorância, seu destino trágico suscita na platéia um grande sentimento de piedade. As situações trágicas em que o herói está implicado são consequências de sua hybris, o nome grego à “desmedida”, a atitude que extrapola os limites de quem a pratica. A hybris, ou desmedida, tem um papel fundamental no pensamento grego, já que, na Grécia antiga, acreditava-se que o destino humano era traçado de acordo com os desígnios divinos, sendo negado ao mortal qualquer possibilidade de mudanças naquilo que lhe era reservado. Por isso, agir movido pela hybris, praticar essa forma de desobediência religiosa, acreditando-se capaz de ludibriar a vontade e os caprichos dos imortais, faz movimentar os mecanismos divinos, levando o mortal desobediente ao encontro do destino do qual ele tenta fugir. Assim, podemos entender que, quando Édipo ouve do oráculo de Delfos que é seu destino matar seu pai e casar-se com sua mãe, o herói resolve sair da casa dos pais na tentativa de fugir desses desígnios impostos pelos divinos. Mas ele não sabia que viva com pais adotivos. Na fuga, Édipo acaba por encontrar os pais biológicos e, ainda em ignorância, cumpre o seu triste destino. Por fim, o último conceito aristotélico que analisaremos é sobre a catarse (em grego, kátharsis), o efeito de purgação, ou de purificação que a tragédia provoca em sua platéia. Escreveu ele: “(...) a tragédia (...) suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação [kátharsis, catarse] dessas emoções” A catarse era originalmente um termo usado pelos gregos em sua medicina, significando algo como “livrar o corpo de algum mal”. Transpondo esse conceito da medicina para a tragédia, Aristóteles afirma ser a catarse o efeito, ou a propriedade, que a tragédia tem de purgar do espectador os maus sentimentos. Seria algo como um misto de compaixão pelas dores sentidas pelo herói e o receio prudente de vir a sofrer os mesmos sofrimentos caso agisse como ele. As críticas que os pensadores modernos, como Brecht, fazem a Aristóteles estão quase todas centradas na catarse que atenderia aos interesses do Estado ao desestimular quaisquer atitudes impensadas ou individualistas por parte dos cidadãos, além de ter um efeito alienante graças à descarga emocional intrínseca a ela. Evidentemente uma reação emocional tão profunda não seria assim tão simples, mas Aristóteles não deixou claro como a catarse ocorre, nem tão pouco que ela realmente fosse um instrumento de alienação e doutrinação do Estado, embora, ao fim e ao cabo, acabava por provocar esse efeito. Não podemos nos esquecer que a Poética se configura como apontamentos de aula, deixando várias lacunas que provavelmente se completavam quando o filósofo proferia suas aulas. Certamente o teatro contemporâneo, pelo menos naquilo que é mais aparente, é bem diferente daquele que os gregos assistiam na Antigüidade. Entretanto, por mais que tenha mudado o fazer teatral ao longo dos séculos, o teatro grego, em todas suas modalidades, ainda é uma de suas raízes mais profundas, e a Poética, quando lida sob os filtros necessários para novas e renovadas interpretações, ainda é uma referência para se compreender alguns dos principais conceitos que permeiam a evolução do teatro.